Jill Price passou por uma série de testes e exames, primeiro para confirmar sua condição e, depois, para aplacar sua preocupação: o estado de seu cérebro. Jill não era portadora de nenhuma doença, mas tratava-se de um caso único na ciência. “Isso foi uma notícia maravilhosa. Tudo ganhou novas perspectivas quando descobri que não existia mais ninguém como eu”, diz.
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A fonte do “superpoder” de Jill e dos outros três casos que acabaram sendo revelados depois — Ric Baron, 50 anos; Brad Willians, 51, e uma pessoa cuja identidade ainda não foi revelada — pode ser, segundo exames de ressonância magnética, duas áreas de seu cérebro que são maiores que o normal: uma região do lobo temporal (parte lateral do cérebro que administra a memória) e o núcleo caudado (que também tem um papel nas lembranças e no aprendizado e está associado, em alguns casos, a transtornos obsessivo-compulsivos).
Segundo Larry Cahill, essas duas áreas podem estar trabalhando de uma maneira ainda desconhecida, fazendo o cérebro lembrar de atividades que fazemos automaticamente, como pentear os cabelos ou abrir a geladeira. Um dos primeiros indicativos prévios do estudo aponta elementos compatíveis com o transtorno obsessivo-compulsivo, embora nenhum dos pacientes do estudo sofra desse mal. Com sua memória, Jill ganhou fama de detalhista entre família e amigos e, para não ficar com fama de chata, precisa se policiar. “Especialmente com minha mãe procuro não ficar corrigindo muito. Fico impressionada como as pessoas se esquecem de detalhes tão importantes para mim, então acabo parecendo chata ao corrigir”, afirma. Jill é um prodígio no que se refere às lembranças pessoais. Mas não consegue decorar nada que não goste, tinha problemas na escola e mais ainda na faculdade, já que as lembranças impediam que se concentrasse. “Pensava em meus pais e, imediatamente, memórias ligadas a eles surgiam. Qualquer estímulo provoca as lembranças.”
Às vezes, lembrar é um fardo. Jill explica que nunca se preocupou em evitar situações ruins para se defender: “Acredito que me tornaria em uma pessoa temerária e deixaria de viver, especialmente sabendo que surpresas desagradáveis são inevitáveis”. Mas seu semblante sorridente se fecha quando uma memória em especial surge. Há cinco anos, o marido de Jill saiu para trabalhar e teve um ataque cardíaco. Morreu seis dias depois. Como efeito, ela passou quase dois anos e meio sem trabalhar. “Achei que morreria. Não conseguir esquecer significa não ver a dor diminuir, é sempre a mesma, como se tivesse acabado de acontecer.”
Aos poucos, Jill conseguiu se recuperar. Sentou no sofá de Oprah Winfrey, a mais famosa apresentadora de TV dos Estados Unidos, e foi ao programa da jornalista Diane Sawyer, no qual respondeu a uma série de perguntas sobre séries televisivas com 100% de precisão (ela adora seriados). Essa turnê midiática entrou na vida de Jill Price em 2006, quando o primeiro artigo técnico foi publicado e gerou repercussão mundial. “Fiquei assustada com o fato de estarem falando a meu respeito na China.” É o preço da fama. “Recebi uma oferta de US$ 30 mil para filmarem um documentário sobre minha vida, mas recusei. Não há nada para filmar, afinal, tudo que acontece de interessante está na minha cabeça e ali as câmeras não entram.”
Jill mantém extensos diários de sua vida. “Comecei a escrever como forma de organizar tudo aquilo que me lembrava e muita gente dizia que eu decorava, mas era parte da minha mania de organização”, afirma. É seu modo de compensar pelo caos das lembranças desordenadas em sua mente. “É comum me dizerem que tenho uma noção problemática do tempo [por vivenciar tudo ao mesmo tempo], mas é o contrário, pois tenho a exata noção de cada dia, coisa que as outras pessoas não têm.” São mais de 12 mil dias armazenados na memória. Os diários que Jill escreve há quase quarenta anos somam mais de 1.000 páginas.
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Em 2008, lançou nos EUA o livro "A Mulher Que Não Consegue Esquecer", que a Editora Arx traduziu para o português no começo deste ano. “Quero ajudar outras pessoas e o livro foi parte de um longo processo científico com o mesmo valor da publicação da pesquisa.” Mais de 3 mil pessoas já contataram a Universidade de Irvine depois que Jill revelou sua identidade, começou a falar com a imprensa e lançou seu livro.
“Imaginei que a decisão de publicar o livro ou me identificar fosse opcional, mas meu pai disse algo muito sábio: ‘você deve isso à sociedade, desde o momento que abriu essa porta para sua condição; não é mais sua opção, é um dever’”, afirma. “Os médicos nunca vão poder mudar minha realidade, mesmo que eu quisesse. Então só o fato de ter motivado esse novo campo de estudos valeu todo o esforço e a exposição. Quem sabe não encontram a cura para o mal de Alzheimer por conta disso? Pensamento positivo também ajuda.”
Tópico postado por Bright
Fonte : http://www.acordadao.com/2010/07/mulher-que-nao-consegue-esquecer.html



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